Tenho a garganta estrangulada. Deixa-me respirar pelo nariz, traz as aranhas para o nosso ninho, deixa-as tecer as suas teias por cima de nós, para que ao dormir possamos saber que outra vida existe para lá dos nossos sonhos. Não sabes o que trago desse lado, se as aranhas andaram lá comigo. Por vezes eu não sei também. Corrigindo: nunca sei. Nunca sei o que sonho, mesmo quando tento programar os sonhos. Sobretudo quando tento programar os sonhos. Nessas noites vagueio por lugares desconhecidos e os sons da nossa vida não entram nessas ruas, nessas cidades, nesses quartos onde o prazer se troca por dinheiro. Comigo as aranhas brincam, as aranhas respiram, com suas patas finas tecem teias por dentro dos pulmões e unem-nos às paredes húmidas da nossa ultrapassada filosofia. Há no entanto aquele ritmo antigo. Sabes, aquele ritmo sem percussão que se estende desde o primeiro sopro. Aquele ritmo que é apenas melodia, sem toque de tambor ou batuque de coração. Nas ruas dos meus sonhos eu não ouço esse ritmo. Mas sinto. Sinto nas ligamentos tensos pela corrida. Sinto no fole da teia que prende o pulmão esquerdo ou no bofe retesado pelos fios que a aranha pariu no meu pulmão direito. Sinto por dentro dos meus olhos, nos ligamentos que sobem ao cérebro, e nas têmporas que estremecem com todo o conhecimento do mundo. Só nos sonhos conhecemos o mundo, porque a verdade é o reverso da vida, e as aranhas sabem isso. Pobre filosofia a nossa, precisa de aranhas para se validar. Mas são tão breves, tão fulgurantes, apenas elas prendem a luz à morte, quando se perdem nos nossos sonhos. Tenho a garganta estrangulada pelo tempo, aperta cada vez com mais força. As aranhas passeiam-se por mim.
quarta-feira, 3 de novembro de 2021
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
Um coração
Um
coração, pouco vale ou nada quase
Se
ao bater cada compasso dado falhe,
Se
não o tratares como uma certa frase
De
poema, uma canção familiar, detalhe
No
qual reconheças o que em tempos foste,
Seja
o reverso do que agora és, regulável,
Amena
figura perdida, alguém que goste
Daquilo
que se espera, macio e descartável,
Seja
o espelho que te procura, agudo e voraz,
Em
todas as manhãs, lentas, duras, iguais,
Contra
ti brilhando o rosto violento que te faz
O
que és agora e sempre, um entre os demais.
Preso
à batida seguinte, nesse passo suspenso,
Não
és mais do que morto respirando, nó tenso.
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Caderno de encargos (11)
Não depende de ti acordares, e de cada vez que o fazes é como se uma membrana densa te envolvesse e não te deixasse respirar plenamente, empurrando-te de volta para o sono. Mas resistes a essa força invisível, e tentas com toda a tua vontade mover um braço, uma perna, estender os músculos, permitir que a sua função se cumpra, assentar os pés no chão, palmas duras no chão frio, e caminhar, aos tombos, em direcção à casa de banho. Mas depois voltas, não chegaste a sair da cama, o movimento é descendente mas sentes que trepas um penhasco vertical preso de finos fios, sem a ajuda de cordas nem de grampos, mãos procurando tenazmente segurar-se a cada saliência, reentrância, planta seca rompendo da rocha. O esforço é de tal modo violento que todas as veias do teu corpo se empertigam, sangue golfando, e o sangue cai das mãos, a pele rasgada pelo gume das pedras.
Toda a violência é no entanto intrínseca, vive em ti, não existe fora do modo como te pensas. Quem te olha de fora apenas vislumbra um corpo desistindo de si próprio, vacilante, sem nada que o anime. Ou então vê apenas a banalidade diária, repetida, a cada dia repetida sem memória do anterior, como se viver não fosse mais do que a soma dos momentos em que se existe solto de si próprio.
Seja qual for a medida dos outros, serás sempre diferente do que imaginam que és. Uma identidade difusa, a cada momento procurando concentrar-se em si mesma, e a cada momento diluindo-se como açúcar em água, tão perdida no mundo como absolutamente consciente de si, e da sua permanência quebrada, um vaso partido que nenhuma cola poderá voltar a unir.
Não depende de ti acordar, mas acontece, sem qualquer sombra de resistência. Focar a consciência nesse segundo escapando-se será talvez a tua última derrota. Mas disso dependes como da luz para ver. Ou será que vendo mais fundo nas sombras descobres o reverso de ti próprio, rompendo o abismo, comum rebento trazendo a Primavera?
sexta-feira, 22 de abril de 2016
Soneto coxo com cães
Falei dos cães pretos e sabias que falava
de metáforas. Dia a dia, vais somando
bizarrias, sabendo que amestrando
esse desejo, insidioso, não se salva
nem um gato nem um morto, esperava
que compreendesses: derrubando
a luz densa, de um golpe, misturando
sal e dor, a tal frase que eu estimava,
talvez nos retomemos, oh perdidos
que estamos há tanto, barcos soltos
enfrentado mar alto, empurrados
pelas ondas, somos assim sacudidos,
maré certa, hora definida, revoltos
vamos, loucos, certos, derrotados.
de metáforas. Dia a dia, vais somando
bizarrias, sabendo que amestrando
esse desejo, insidioso, não se salva
nem um gato nem um morto, esperava
que compreendesses: derrubando
a luz densa, de um golpe, misturando
sal e dor, a tal frase que eu estimava,
talvez nos retomemos, oh perdidos
que estamos há tanto, barcos soltos
enfrentado mar alto, empurrados
pelas ondas, somos assim sacudidos,
maré certa, hora definida, revoltos
vamos, loucos, certos, derrotados.
sábado, 9 de abril de 2016
As meninas, segundo Vélazquez
As meninas espreitam por cima das cabeças.
O pintor olha para nós,
mas as pessoas estão à nossa frente e mal
conseguimos perceber o sorriso irónico -
no momento seguinte ele é sério e
posa para a história, para todos os dias
em que as portas do museu se abrem e recebem
os escolhos da modernidade, turistas
de máquina fotográfica em riste
roubando a alma das meninas.
Talvez até já tenha sido escrito
um poema sobre isto - mas esse poema
não nos tinha aqui, olhando de volta
aquele centro magnífico de onde irradia
essa majestade de outrora, o corpo afastando-se
da tela, as damas e os anões da corte
num êxtase de inutilidade pomposa,
cão aos pés, derreado pela servidão
aos monarcas capturados pela sombra de um reflexo,
o rei espreitando a cena, curioso secundário,
e a imagem multiplicada do artista, sob
a ombreira ao fundo e em todos os quadros
dos seus mestres
cobrindo as paredes até ao tecto.
Mil vezes os turistas se repetem,
e aquele gesto solene do pintor e
os enigmas ocultos pela hábil mão
não são agora mais do que mil fotos perdidas
em discos rígidos de computadores,
vazio imaterial, presença estilhaçada.
Nada. Nada mais que nada.
O pintor olha para nós,
mas as pessoas estão à nossa frente e mal
conseguimos perceber o sorriso irónico -
no momento seguinte ele é sério e
posa para a história, para todos os dias
em que as portas do museu se abrem e recebem
os escolhos da modernidade, turistas
de máquina fotográfica em riste
roubando a alma das meninas.
Talvez até já tenha sido escrito
um poema sobre isto - mas esse poema
não nos tinha aqui, olhando de volta
aquele centro magnífico de onde irradia
essa majestade de outrora, o corpo afastando-se
da tela, as damas e os anões da corte
num êxtase de inutilidade pomposa,
cão aos pés, derreado pela servidão
aos monarcas capturados pela sombra de um reflexo,
o rei espreitando a cena, curioso secundário,
e a imagem multiplicada do artista, sob
a ombreira ao fundo e em todos os quadros
dos seus mestres
cobrindo as paredes até ao tecto.
Mil vezes os turistas se repetem,
e aquele gesto solene do pintor e
os enigmas ocultos pela hábil mão
não são agora mais do que mil fotos perdidas
em discos rígidos de computadores,
vazio imaterial, presença estilhaçada.
Nada. Nada mais que nada.
sexta-feira, 11 de março de 2016
Once upon a midnight dreary
Há dois dias que um pássaro canta lá fora. Quando as aves dormem, noite feita, para lá do seu meio irredutível. O que faz ele, a esta hora? Porque canta? Os outros pássaros, recolhidos no abraço das árvores, não ouvem. Ele anda desapegado, solto, canta sozinho não sabendo que a noite não foi feita para cantar. A primeira vez que o ouvi, achei que era a coruja do bairro; costuma caçar à noite, e pia no seu voo de rapina, antes de cravar as garras nos ratos do descampado atrás do prédio. Mas o silvo da coruja é diferente, soa breve e agudo; este eu pensei que poderia ser um pássaro diurno. Não conheço o canto das aves, ponho-me a adivinhar: pode ser um rouxinol. Pode bem ser um rouxinol, mas o canto é mais quebrado, curto. E se for um rouxinol, porque canta tão tarde? A hora deles nasce entre dia e noite, e aí vivem. Porque canta à noite este pássaro? Poderá ter enlouquecido, ou mesmo ter nascido perdido da razão? Que digo? Os pássaros não perdem a razão, são puro instinto. Voam e cantam porque os seus genes não lhes permitem fazer outra coisa. Mas cada espécie tem os seus hábitos, as suas horas, a sua dieta. Se não há razão, apenas determinismo genético, não pode haver descentramento, deslize da razão, loucura. Certamente um pássaro não canta de noite por ter enlouquecido. Porque está então lá fora, soltando os seus destemperados chilreios? Nevermore não é, nem eu procuro Lenore. O seu toque não é frio e tenebroso, não me tenta com visões do Inferno, evocando o rosto de uma morta. É um pássaro apenas, cantando.
Calou-se agora, um carro parou, alguém chegando a casa. E começa novamente. Um canto recolhendo o ladrar distante de um cão no seu novelo, que me entra pelo coração, tolhendo-o. Não preciso de razão para o entender. Apenas ouço.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
Roleta russa
Pensas que podes esperar ai no pátio e que alguém eventualmente te abrirá a porta. Sem dizeres nada, sem tentares explicar que nem todos os barcos chegaram a horas, e nem todos partiram depois da noite cair. Sem dizeres nada, vi-te ali a contar as balas no tambor da pistola, quem sabe imaginando que eu iria aceitar o velho jogo de roleta russa contigo - hábitos antigos, desde que os dois vimos aquele filme do Vietname e sentimos nos ossos o vento frio que soprava da tela (ou do ecrã do televisor, já não sei bem). Talvez eu te imagine também, aqui dentro, bebendo o antídoto que fabricaste para a minha tristeza. Talvez eu te imagine, e a tua voz arda no fogo, o barulho da multidão que não conseguimos evitar entrando pela casa como uma vaga imprevista. Os lamentos de um sino distante ecoando na noite entram também, e eu encho o copo um pouco mais, e deixo-me embalar pela memória da música que ouvíamos quando jogávamos à roleta russa. Na casa e fora dela apenas existem vestígios de uma imprecisa falta, de uma necessidade subtil, impossível de satisfazer. Ainda me lembro do livro que me trouxe esta ideia, do seu lugar ao lado da cama, na mesa de cabeceira. E lembro-me porque tu também lá estavas, e lias outro livro qualquer, as tuas histórias de fantasmas ou de aventuras, não sei ao certo. E esta ideia ficou, sobreviveu, resistiu até ao momento em que te senti à porta de casa, no pátio, medindo os passos que te faziam voltar ao nosso passado. Mas espera; as sirenes do porto uivam ainda, e os barcos que chegam a horas entram pela boca do rio, vultos deslizando lentamente, sombras rompendo o nevoeiro até tocarem as tábuas do cais, e pararem. A tua espera não será interrompida pelo grito longínquo da cidade, podes ficar aí imaginando o momento em que eu te abro a porta, e tu entras, e colocas o cano da arma na têmpora. Um clique frio, e ainda outro, e talvez sobrevivamos mais um dia. Como os soldados do filme, na nossa cabeça a guerra não terá um fim, continuaremos a ouvir o chamado do trompete e o ribombar distante dos bombardeamentos, o canto próximo do corvo e o adejar das suas asas, a ameaça de silêncio. Se nada disseres, não te abrirei a porta.
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
Eco
A passagem das estações é como o eco de uma pedra na água parada, a ondulação alastrando em volta do ponto do impacto até desvanecer. O tempo concentrado nos Verões de infância, o centro absoluto a partir do qual se alargam os que se seguiram, até que a potência do primeiro Verão não seja mais que uma ausência desprovida de sentido.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
Setsuko Hara
Setsuko Hara morreu em Setembro. Soube-se a semana passada, um rasto breve que passou pelo Facebook - assim foi. E eu achei que ainda vivia. Talvez tenha tentado escrever um ou dois textos sobre ela, e sobre Ozu. Mas são tempos de míngua, estes, e por isso não chegarão a viver, esses arremedos de qualquer coisa. Resigno-me à impossibilidade: nunca saberei escrever texto que faça justiça a um enquadramento de Ozu (com Setsuko Hara) e esta evidência conforta-me (só assim se vai persistindo, imagino). Era um rosto, apenas, iluminando o ecrã. Ainda ontem a vi, e era jovem, e vivia.
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
Caderno de encargos (10)
Lugares onde não posso ir, golpes que as mãos vão falhando, a noite vai-se cumprindo a rajadas de via sacra. Viso o sono com o meu arco dançante, ajeito a mira, estico o antebraço e falho uma vez mais, sabendo o voo da seta, sua trajectória, sabendo que apenas quando o impulso inicial extinguir-se e a seta cair no chão poderei dormir, oh, dormir encontrando nos sonhos não mais do que o reverso dos meus passos, o percurso feito de costas voltadas para o futuro, Janus de trazer por casa, doméstico e banal, conciliatório. Passo pelos corredores tolhido e mudo, curtido a medo e a certezas das quais preferiria não reconhecer o rosto. Alfaiates que preparam o dia para este final, tecem o tempo com a agulha torta, e o tamanho da roupa que me entregam é o errado, sempre sempre. Onde não posso ir? A lugares que se perdem dentro dos meus sonhos, terraplanados por diabólicas máquinas, onde antes estava o pátio onde brincava está agora reboco, lixo, terra suja, memórias sem referente, esquecimento. Não posso ir, mas ainda assim regresso, e embato em muros de que não se descortina o topo, arde-me tanto a impossibilidade de os subir como os olhos que gritam por descanso. O meu arco tosco, de madeira agreste, aponta sempre o norte mas a vida está a sul, e eu não sou Janus. As fundações da casa não aguentam. E eu não voo.
sábado, 21 de novembro de 2015
Caderno de encargos (9)
Vazadouros, depósitos de lixo, descampados de almas. Somos atirados, e revolvidos por garras de camião de lixo e mandíbulas de bulldozers até nos tornarmos simples memória do que fomos, farrapos prosaicos alimentados a comprimidos e e outras substância miseravelmente lícitas, amálgamas das quais não se distinguem contornos, músculos, objectos partidos, roupas e má poesia. E voltamos a ser alimento de animais ferozes, carniceiros, necrófagos debicando a carne até surgir a luz negra do osso gasto, seco e sujo. As gaivotas voam a pique, pousam e unem o seus grasnados numa ensurdecedora sinfonia, cacofónica, violenta, transporte à loucura. Batemos a cabeça contra muros que não estão lá, e ainda assim a agonia fermenta nas entranhas e sobe aos dedos, procurando nas palavras esboço de absolvição. Mas nem assim. Partimos para lá do que conhecemos, para lá do que nos pode conhecer, e nem a angústia faz sentido, nem o desespero celebra as coordenadas que poderão restabelecer o nosso território. Oh, por cobardia e pela simples inutilidade de tudo preferimos não o fazer, mas encostados à parede, o gume da espada beijando o pescoço, cedemos cobardemente, achando que a ausência de um mapa poderá ser a contento substituída pelos mapas que os outros poderão ter para nos oferecer. Não há linguagem mais violenta do que o nada que a linguagem não pode, nunca conseguirá explicar. Lugares vazios de tudo, inóspita solidão.
sábado, 17 de outubro de 2015
De pão e de certeza e do rumor do mar
De pão e de certeza e do rumor do mar
(quando chega o Inverno)
precisamos tanto quanto
do outro estamos famintos
e se no início do dia trocamos
o gesto exacto pela incerteza
do que julgamos saber
ou do que pensamos perder
quando apostamos na derrota
na queda a que chamo
a geometria decifrada do teu corpo
números secretos conquisto
e das águas tiro um rosto,
ao qual dedico mãos pés a linha cinza
do coração, entregue em tempos
a quem não a percebia,
a fronteira de penumbra, território
devastado, rasto de ruína
digno do esquecimento dos mortos
que tu, apenas tu, poderás retomar,
com o teu exército feito do claro
sol de um novo dia.
Caderno de encargos (8)
A dificuldade não é começar. É continuar. Começar e
continuar. Persistir até que comece a fazer sentido, aguentar até que comece a
surgir alguma forma da coisa caótica e desprovida de sentido que dá início a
tudo. Mas o cansaço surge demasiado rápido. Não me ensinaram a esticar até ao
limite as cordas do tecido, a fiar no vazio, sem perceber a partir da trama o
resultado a que se irá chegar um dia. E eu nunca aprendi, nem talvez tenha
querido a aprender, a fazer mais do que tentar. Admitir que este será talvez o
meu maior defeito é dizer pouco. Talvez até nada dizer, sobretudo porque quem
me conhece deverá saber quais os piores defeitos. A dificuldade é não continuar
e a cada tentativa falhar. E retirar consolo do falhanço, ou pior, de nem
tentar. Se nunca chegar ao fim do esforço, da tentativa, posso afirmar que
nunca verdadeiramente falhei. Não sei que psicose ou que fracasso se pode
chamar a isto. Mas a cada dor, a cada angústia, esta lâmina entra mais fundo.
Sangrar continuamente, e ter pena dessa dor a que não consigo fugir. Não
poderei ter perdão por ter fugido à tentativa. Um dia imagino poder quebrar o
ciclo. Quando será tarde?
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Acto de Primavera
Aquele plano final de Acto de Primavera. O branco da amendoeira, o olhar de Manoel de Oliveira percorrendo as flores, por detrás o céu, azul azul. E outras cores, antes: túnicas carmesim, verdes, vermelho de sangue. O azul celeste de Maria. E as sombras de Caravaggio caindo sobre Jesus e os apóstolos, ao fim do dia. A câmara anda por ali, esperando o momento em que o real se transforma em ficção, em sonho. Da leitura de uma notícia mundana nasce, num lento deslizar caímos no sonho, e apenas o notamos quando nele estamos imersos. Somos figurantes de um acto de magia, o realizador leva-nos pela sua mão, e vivemos a vida de Jesus, a sua danação e morte - mas não a ressurreição, essa existe apenas fora de campo, para lá do real que nos ilude, é a flor de amendoeira do plano final.
Homens que cavam a terra são os heróis do contra-campo. Mulheres que seguem os homens na sombra, a raiz que os suporta, a mãe de Deus e a mulher a quem Jesus amou. E colhem o trigo, e carregam aos ombros feixes de feno, e vão buscar água à fonte, pela verdura. A luz que os eleva ao reino dos Céus é a do olhar do homem que sorri para nós logo ao início, Manoel de Oliveira. O acto de Primavera, transfiguração da carne em luz, eternidade. Respira pelo cinema, vive através dele, e habita-nos. Resiste ao tempo.
Caderno de encargos (7)
Amigos, gostava de os ter vivendo a meu lado, como os fantasmas que são. Não aqui em casa, ocupando os lugares por onde me vou esquecendo, mas numa casa ao lado, a dois metros de distância, para que os pudesse convocar sempre que precisasse. Não quando andasse perdido nas tais profundezas de que fala o poeta
(qual poeta? algum fala de profundezas sentindo-as mesmo, o ar tão distante como a palavra está de um surdo-mudo? saberão mesmo o que é cair, sem conhecer o fim à queda? ou fingirão apenas dor, e voz, e sofrimento, deitando sobre o papel a sombra que não guardam?)
não quando andasse tão errado sobre o que me dizem que achasse que cada corredor leva sempre a uma porta. Queria poder chamá-los quando cair fosse um relâmpago que me sacudisse de alto a baixo, uma permanência. E que não encontrasse o fio eléctrico que a sustivesse. Queria poder abrir-lhes a porta de casa, acender a luz como um terremoto e deixá-los entrar no corpo que desabito. E eu fosse um fantasma por momentos, a minha pele cobrindo da cabeça aos pés carne, nervo, músculos. E eu fosse um fantasma e entrasse em casa deles, passeasse pelas salas e descobrisse nas estantes livros de que nunca ouvira falar, títulos novos, filósofos desconhecidos. Que não reconhecesse o cheiro dos meus amigos, nem o eco das vozes abandonadas, nem as fotografias sujas de pó enfeitando a cómoda da sala. Que abrisse a janela do quarto e a luz entrasse, composta de moléculas acabadas de nascer, e no meu corpo de fantasma essas moléculas desenhassem uma alegria antiga.
E depois regressaria a minha casa, e eles à sua. Regressaria sabendo que sempre que precisasse poderia trocar de corpo e voltar, como uma mariposa reencontrando o seu casulo.
domingo, 6 de setembro de 2015
Caderno de encargos (6)
Acabei agora mesmo de escrever um poema. Não apontei a hora, não o fixei ao eixo do tempo. O dia também não. Um poema não precisa de dia nem de hora para estar pronto, julgo eu. Até que volte a pegar nele, está ali, repousando, ganhando corpo. Se for um vinho terá depósito. Se for uma laranja acabará por apodrecer. O verdete cobrirá as suas rugas, e o acre da podridão tomará conta da casa. Ele e os outros, fruta podre no recipiente de plástico, na cozinha. Nada de cristal, nem lugar de honra na casa. Plástico, singelo, a servir de depósito para o poema e para as suas metáforas.
O poema que eu escrevi, regressou a mim depois de eu o ter deixado partir há uns tempos. Soltei-lhe a trela e ele, obediente, voltou e pôs-se a escarafunchar a porta. Chateou-me, o sacaninha, e não aguentei: deixei-o entrar. Apesar de saber que depois de o aceitar ele iria atazanar-me o espírito. Com a sua perfeita inutilidade, com a sua redundância escarninha, com a sua bela superfície espelhada reflectindo a soma negativa que o trouxe ali, ao cano da minha pistola.
E agora que escrevo sobre isso, acrescento humilhação ao caso. Se fosse um detective seguindo uma pista, diria que suficientes indícios desta soma negativa só podem levar a uma conclusão, uma apenas. Mas não. Insisto. Mesmo sem saber como rir, escrevo poemas. Se os poemas fossem vinho, viveria feliz algumas horas. Mas nem isso, não são vinho. São apenas objectos inexistentes com os quais comparo o vinho, material e útil. Não têm corpo, nem cheiro, nem sabor. Não nos atiram para o esquecimento, antes nos puxam do sonho e nos deixam desamparados na realidade, como peixes desprendidos do anzol.
Mas há um verso...
domingo, 28 de junho de 2015
Caderno de encargos (5)
Todos os dias, o sono trazendo a cegueira aos olhos, hesito na saída. Trago às costas o peso do cansaço diário. Julgo no entanto ser o único a ver o que por dentro cresce. O hábito antropológico de encontrar nos olhos dos outros a impossibilidade material, um muro espesso. Nos homens escamas crescem na pele; a carne sólida, as mãos soltas numa insuperável imobilidade, na ausência do álcool. O corpo capturado num movimento violento, a arte da prisão. A sombra irrompe dos olhos e torna-se a roupa suja que cobre o corpo. Não sou como esses homens que vão morrendo do cancro que lhe corrói as entranhas, mas sei que cedo ou tarde a luz se dissipará como uma voz na distância. Não preciso de enfermidades, vícios, tédio e loucura - tenho a modorra quotidiana, plena de razão absurda, como um sol ofuscando os caminhos que conduzem ao esquecimento. Uma membrana húmida alastra pela carne, e num momento tanto sou o fio de água que restou na poça como o fantasma de um pássaro gravado na retina. Atiro-me contra a cerca, na esperança de que a sólida gramática da morte me acorde. Mas o gancho que me puxa de volta ao presente, metafórico e sublime, prende a minha carne ao que não poderei ver. O sono é como um estranho que não deixo entrar em casa. Talvez não me reste mais do que isso: resistir ao imparável embate do tempo.
terça-feira, 16 de junho de 2015
Caderno de encargos (4)
Não falamos do que nos interessa, perdemos o que nos trouxe aqui, as sombras estão presas no passado. Na conversas mentimos mais do que a marca desse rosto no espelho, ou a mancha deixada na mesa pela maçã roída de domingo à tarde, jornais de há três meses que ainda não estão amarelos e ecos de canções na rádio de um tempo antes de nós. Chama-se inventar uma história para caber no coração, ir criando as curvas apertadas que temos a certeza de nos terem trazido aqui. Ou acumular redundâncias numa caixa de cartão que guardamos na prateleira de baixo da mesinha de cabeceira, papeis velhos, recibos amarrotados e os comprimidos que salvámos para aquela ocasião em que o abismo nos olha de volta.
No nosso medo calamos as certezas, mas o cansaço debate-se entre mãos, é uma montanha que não conseguiremos conquistar, nem que a vida durasse o suficiente para aprendermos a arte da escalada, do alpinismo, da poesia. Contra os olhos entregamos o resto de sangue que nos anima. E nas veias um denso arado abre os sulcos por onde há-de escorrer o presente, princípio de bolor e esquecimento.
Não, de todas as palavras possíveis, é a que mais vezes nos aconchega. Uma conta-corrente que vem de muito longe, debitando possibilidades esgotadas, os futuros que arderam sem nunca terem chegado a existir, os que nunca vimos e no entanto viveram dentro de nós com a força suficiente para nos lembrarmos deles, o ímpeto da onda antes de ser cortada pela língua de areia para onde se atira.
Não falamos nunca do que nos interessa, e não interessa saber porquê. Erramos o alvo, sempre, com fulgor e alegria - no intervalo da necessidade, na dobra da razão, habitamos. Sabemos o que somos aí.
domingo, 3 de maio de 2015
Poema encontrado no Facebook
Quem regressa a Portugal regressa ao medo
de falar sem alçapões de protecção
conventual, ao respeitinho pelos títulos
de borra, à timidez de protestar nas oficinas,
nos empregos, nos polés, nos hospitais.
de falar sem alçapões de protecção
conventual, ao respeitinho pelos títulos
de borra, à timidez de protestar nas oficinas,
nos empregos, nos polés, nos hospitais.
Volta ao gozo bichaneiro da franqueza
pelas costas, ao bitate regougado
pela incúria, ao leve gás do palavrão
desopilante, pusilânime, vendado,
ao complacente desamor da liberdade.
pelas costas, ao bitate regougado
pela incúria, ao leve gás do palavrão
desopilante, pusilânime, vendado,
ao complacente desamor da liberdade.
Regressar a Portugal é regressar
ao desapego por direitos e deveres,
à indiferença pela história colectiva,
pelo que quer que sobrepuje o cá-se-vai
dum comodismo sem coragem nem prazer.
ao desapego por direitos e deveres,
à indiferença pela história colectiva,
pelo que quer que sobrepuje o cá-se-vai
dum comodismo sem coragem nem prazer.
É regressar a horizontes de betão
e eucalipto, a frustrados atoleiros
de automóveis à deriva, ao fanico
de salários sobrevivos, mordaçantes,
ao cajado da lisonja e da preguiça.
e eucalipto, a frustrados atoleiros
de automóveis à deriva, ao fanico
de salários sobrevivos, mordaçantes,
ao cajado da lisonja e da preguiça.
Quem regressa a Portugal, regressa ao tempo,
sobretudo, da infância, que o lugar
já foi levado (não me canso de o dizer,
nem me conformo) pelo tufão da mais-valia
predial. Mas se o tempo da infância
sobretudo, da infância, que o lugar
já foi levado (não me canso de o dizer,
nem me conformo) pelo tufão da mais-valia
predial. Mas se o tempo da infância
cabe inteiro na memória, quem regressa
a Portugal, regressa a quê e para quê?
a Portugal, regressa a quê e para quê?
José Miguel Silva, in Erros Individuais, ed. Relógio d'Água
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